Repertório

A diferença entre consumir referências e construir repertório

A gente nunca teve tantas referências disponíveis. Pinterest, Instagram, TikTok, livros, filmes, viagens, exposições, arquitetura, embalagens, restaurantes, conversas, lugares. Tem sempre alguma coisa nova para olhar, salvar e colocar numa pasta pra consultar depois.

E, de certa forma, isso é maravilhoso. Nunca foi tão fácil encontrar coisas interessantes.

Mas será que consumir tudo isso significa, necessariamente, construir repertório?

Já tivemos clientes que ficaram perdidos com o excesso de referências, mudando de ideia a cada revisão. Inseguros se deveriam seguir tendências de mercado ou suas próprias referências pessoais. Uma leva ao caminho genérico, onde acreditamos estar mais seguros. A outra leva à autenticidade. Difícil é distinguir o que é ruído do que é realmente criativo.

Tendemos a acreditar que consumir muitas referências nos torna mais criativos, mas a verdade é que esse excesso de ruído tende a nos paralisar. O mundo nos faz acreditar que a criatividade está fora, sendo necessário estar atualizados e consumir cada vez mais.

Às vezes, experimente o contrário.

Um período de silêncio.

Seu cérebro já registrou as referências. Talvez você só precise dar espaço para ele fazer as conexões certas.

Referência não é repertório 

Referência, pra mim, é um conjunto de informações que podem ser utilizadas como base para criar algo novo. Algo que foi avaliado por você como bom o suficiente, que para o propósito que busca, já funciona.

O problema é quando confundimos uma boa referência com uma boa escolha.

É normal escolhermos referências estéticas que atendam ao nosso gosto pessoal. Afinal, se estamos olhando para alguma coisa que consideramos bonita, é natural querer trazê-la para perto.

Mas, dentro de um projeto comercial, por exemplo, isso envolve ter uma visão muito mais ampla de negócio. É mais correto pensar: o que agradará o meu público? O que essa escolha comunica? Ela faz sentido para esse contexto?

Já vi a fachada de uma clínica obstétrica com estética heavy metal, paredes pretas e tipografia gótica vermelha. Não posso julgar o designer, pois não sei o background do projeto, mas, como cliente, não consideraria um ambiente acolhedor para acompanhar uma gestação.

Talvez aquela estética fosse exatamente o que alguém queria. Talvez existisse uma estratégia por trás daquela escolha que eu não conheço. Mas o exemplo me faz pensar sobre como uma referência pode funcionar muito bem em determinado contexto e ser completamente inadequada em outro.

Você pode gostar de heavy metal, consumir essa estética e levar isso para o seu estilo de vida. Funciona com você porque é a mensagem que você quer transmitir com a sua personalidade.

Quando estamos falando de uma referência para um projeto que não tem relação com esse universo, só porque você gosta, é extremamente arriscado.

Você não é o seu cliente.

É nesse momento que devemos ter um olhar estratégico para as referências, colocá-las em caixinhas e entender: funcionaria ou não para este propósito? O que comunica? O que existe por trás dessa escolha?

O olhar que existe por trás da referência 

Acho que existe uma diferença importante entre olhar para alguma coisa e pensar “eu gostei” e conseguir entender por que aquilo funciona.

O primeiro é gosto. O segundo começa a ser repertório.

Quando uma referência realmente me chama atenção, gosto de catalogá-la, nomeá-la e separá-la em categorias. Se é imagem, pastas no Pinterest funcionam muito. Se são textos, um caderno ou uma planilha de consulta.

Quando estou criando algo, volto para revisar esse acervo de referências. Elas certamente enriquecem meus projetos.

Mas não é porque uma referência está salva que ela já foi incorporada.

O olhar curioso para a origem das coisas aguça ainda mais nossa criatividade. Quando descobrimos seus porquês, mais ideias vêm à mente para ampliar aquele conceito.

Por que essa escolha funciona? De onde ela veio? O que ela comunica? Por que alguém decidiu fazer dessa maneira? Funcionaria em outro contexto?

Investigar nos dá mais embasamento para tomar a decisão de usar ou não aquela referência em determinado propósito.

E talvez essa seja uma das diferenças entre simplesmente consumir referências e realmente construir repertório: você deixa de olhar apenas para o que está na sua frente e começa a tentar entender o que existe por trás.

Repertório não está só no que você trabalha 

Outra coisa que percebi ao longo dos anos é que repertório não precisa vir necessariamente daquilo que você faz profissionalmente.

A literatura me convida a trazer mais profundidade às criações. Discutir sobre negócios me traz o background das necessidades e anseios dos clientes. A alta gastronomia, pra mim, é repertório voltado à excelência e dedicação, mas também composição, cor, textura e tudo aquilo que desperta nossos sentidos.

Tudo comunica e podemos extrair informações valiosas do que temos contato.

Experiências com arquitetura e ambientação me ajudam a observar fatores de encantamento. Detalhes que nos hipnotizam e prendem nosso olhar.

A fotografia do cinema ensina sobre transmitir emoções através de um enquadramento, iluminação e cor.

Viagens ampliam meu repertório cultural, porque saio da minha bolha e tenho acesso a outras formas de linguagem e expressão.

Também gosto de observar diferentes perspectivas sobre um assunto ou outros processos criativos, então uso o YouTube para isso.

Não necessariamente porque estou procurando uma referência para usar em algum projeto, mas porque gosto de entender como outras pessoas pensam, criam e resolvem problemas.

Talvez repertório seja justamente isso: não limitar o que você observa àquilo que já sabe que precisa.

Quando todo mundo olha para as mesmas coisas

Existe ainda um efeito colateral interessante nesse excesso de referências: quando todo mundo está olhando para as mesmas coisas, fica mais fácil chegarem a lugares parecidos.

Vimos isso agora com a onda do minimalismo nas identidades visuais. Elas até transmitem a mensagem certa, mas, com o grande volume de marcas indo no mesmo caminho, acaba com a memorabilidade, principalmente se tratando de pequenos negócios.

Não acho que tendências sejam necessariamente ruins. Elas existem porque alguma coisa está acontecendo culturalmente e, muitas vezes, fazem sentido para determinado momento.

O problema é quando seguimos uma tendência sem entender por que ela funciona ou se ela realmente tem alguma relação com aquilo que queremos comunicar.

O problema não é usar uma tendência. É não saber por que você está usando.

Tenho um logotipo específico que coleciono desde a minha adolescência. Vi muitas empresas usando esse globo, de diferentes segmentos.

Me lembro sempre do globo genérico. Mas o nome das marcas? Zero lembrança.

E isso diz bastante sobre o que acontece quando uma referência se torna mais importante do que a própria identidade.

A gente reconhece a estética, mas não necessariamente reconhece quem está por trás dela.

Para uma marca, isso pode ser um problema. Principalmente quando ela é pequena e precisa justamente construir reconhecimento e diferenciação.

Repertório é mais do que acumular referências

Eu gosto de ter referências salvas. Gosto de catalogar, organizar, voltar para coisas que encontrei há algum tempo. Não acho que o problema esteja em ter uma pasta enorme no Pinterest ou uma lista de livros que quero ler.

O problema é acreditar que o acúmulo, sozinho, vai construir repertório.

Você pode ter milhares de imagens salvas e ainda assim não saber explicar por que escolheu determinada referência.

Pode conhecer todas as tendências do momento e continuar produzindo coisas muito parecidas com o que todo mundo já está fazendo.

Pode gostar muito de alguma coisa e ainda assim descobrir que ela não faz sentido para aquele contexto.

Repertório não significa conhecer tudo. Também não significa fugir das referências ou tentar ser completamente original, como se fosse possível criar sem nenhuma influência.

A diferença está no que fazemos com aquilo que encontramos.

Uma referência pode ser apenas uma imagem bonita salva numa pasta. Mas também pode despertar uma pergunta, lembrar outra coisa que você viu, trazer uma nova perspectiva ou ajudar a tomar uma decisão melhor.

É aí que as referências começam a se conectar.

E talvez seja justamente dessas conexões que nascem as ideias que ainda não existiam.

O que fica

Construir repertório é sobre aprender a olhar.

Olhar para uma referência e entender por que ela funciona. Observar uma tendência e decidir se ela realmente faz sentido. Viver uma viagem, um livro, um filme, uma conversa ou uma experiência cotidiana e perceber que existe alguma coisa ali que pode ser levada para outro lugar.

Nem tudo precisa virar referência.

Nem tudo precisa ser salvo.

Às vezes, a melhor coisa que você pode fazer depois de consumir uma porção de referências é simplesmente fechar todas as abas e deixar o cérebro trabalhar.

Porque referência a gente encontra em todo lugar, já o repertório revela o que você é capaz de construir a partir disso.


Uma leitura para continuar…

Pense como um artista, de Will Gompertz, é uma boa leitura para quem quer olhar para criatividade de uma maneira menos óbvia. O livro fala sobre o processo criativo a partir da trajetória e do pensamento de diferentes artistas, e conversa bastante com essa ideia de construir um olhar próprio.

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— Amanda Lume

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