Vida

Romantizar o desconforto: as experiências que nos tornam pessoas melhores

Na onda do wellness, parece que aprendemos a fazer da busca pelo bem-estar um projeto de vida. Fazer o que gosta, estar perto do que faz bem, escolher experiências que combinam com o nosso lifestyle, proteger a nossa paz.

Eu concordo que precisamos de equilíbrio. Que devemos valorizar nosso bem-estar, respeitar nossos limites e construir uma vida que faça sentido pra nós.

Mas talvez exista uma parte dessa narrativa que mereça ser questionada.

E se, de vez em quando, a gente romantizasse um pouco o desconforto?

Não o sofrimento pelo sofrimento, mas aquele desconforto que aparece quando saímos da nossa zona de conforto, somos contrariados, convivemos com pessoas e situações diferentes das que estamos acostumados ou fazemos alguma coisa sem saber exatamente como aquilo vai nos fazer sentir.

Porque a vida real não é um mar de rosas. E, na minha opinião, uma vida construída exclusivamente em torno da satisfação pessoal tem grande potencial de formar pessoas pouco dispostas a olhar para além de si mesmas.

O desconforto de não estar impressionada

Uma vez me inscrevi em um curso promovido por uma comunidade local.

Eu estava acostumada com professores experientes, cursos de internet muito bem roteirizados e grandes eventos com palestrantes conhecidos. Por isso, não deixei de notar a timidez e a simplicidade da pessoa que conduzia aquele curso.

Num primeiro momento, aquilo me trouxe desconforto. A condução não prendia tanto a minha atenção e eu poderia muito bem ter desistido. Se colocasse minha satisfação pessoal acima de tudo, talvez fosse exatamente o que teria feito.

Mas permaneci.

Com o passar das aulas, comecei a pensar em como eu me sairia nas minhas primeiras aulas e em como me sentiria se não tivesse o apoio dos alunos. A experiência começou a mudar quando deixei de olhar apenas para aquilo que eu estava recebendo e passei a pensar também na pessoa que estava ali, tentando conduzir aquele grupo.

Além do conteúdo, exercitei paciência e empatia. Como os outros alunos também eram tímidos, passei a ser mais participativa. Fazia perguntas, interagia, ajudava a movimentar a conversa e, sem perceber, minha participação acabou mudando a energia de todo o grupo.

Hoje tenho muito carinho pelo curso, pelas pessoas e me sinto grata por ter me permitido viver aquele pequeno desconforto. Eu poderia ter escolhido uma experiência que me agradasse mais, mas provavelmente teria saído dela exatamente como entrei.

Às vezes, o que nos transforma não é aquilo que imediatamente nos agrada, mas aquilo que nos obriga a desenvolver alguma coisa que ainda não tínhamos exercitado.

Quando o desconforto muda a nossa perspectiva

Outra experiência transformadora aconteceu também em uma comunidade local, onde nos reunimos à noite para entregar marmitas a pessoas em situação de rua. Pessoas invisibilizadas pela cidade, que muitas vezes atravessamos sem realmente enxergar.

Sendo mulher em uma sociedade violenta, eu sabia que era preciso coragem pra fazer uma coisa tão simples quanto sair à noite para oferecer ajuda a desconhecidos. Encontrei essa coragem junto àquele grupo.

Saindo completamente do padrão corporativo, o líder daquela ação era, pra mim, um verdadeiro anjo. Um dia antes, ele fez o mapeamento das pessoas que encontraríamos: onde estavam, seus nomes e o que precisavam. No dia seguinte, com tudo já organizado pela comunidade, fomos de carro entregar as marmitas, uma a uma, por todo o centro.

Essa experiência me apunhalou.

Não tem como sair a mesma pessoa de uma experiência assim.

Cheguei em casa com o espírito em chamas depois de horas distribuindo um pouquinho do bem para aquelas pessoas. Mal me alimentei e comecei a escrever tudo o que tinha vivido em um diário pessoal. Eu não queria esquecer aquelas histórias, porque elas tinham me ensinado demais.

Eram histórias muito complicadas. Cada pessoa tinha seu próprio caminho e seus motivos para estar ali. Eu sei que existem muitas questões por trás da desigualdade, inclusive políticas e sociais, e não pretendo abordar aqui. O que ficou para mim foi o choque de realidade. Eu, com uma vida repleta de bênçãos, fui até ali com a intenção de distribuir um pouco do que tinha para quem precisava mais.

E descobri que não era apenas oferecer comida, roupas ou cobertores. Era prestar atenção. Ouvir, compreender, sorrir, saber o nome. O valor de saber que alguém se importa.

Quando o tudo de alguém é muito pouco e, ainda assim, essa pessoa encontra forças em Deus.

“Uma oração, por favor?”

Aquilo me marcou.

Nem todo desconforto precisa ser evitado

Talvez seja justamente aí que esteja a diferença entre buscar bem-estar e viver em função dele.

Cuidar de si é importante. Fazer coisas que gostamos também. Ter uma rotina que nos faça bem, escolher relações saudáveis e buscar uma vida mais equilibrada são coisas que considero fundamentais. Mas existe uma diferença entre cuidar do nosso bem-estar e transformar qualquer ruído em algo que precisa ser eliminado.

Porque algumas das experiências que mais nos transformam começam no desconforto.

Quando o professor não atende as nossas expectativas, quando precisamos ter paciência, quando encontramos alguém que vive uma realidade completamente diferente da nossa, quando precisamos sair da nossa bolha, quando somos obrigados a ouvir antes de opinar, quando fazemos alguma coisa sem saber se vamos gostar, quando escolhemos permanecer, mesmo podendo simplesmente ir embora.

Não acho que precisamos procurar sofrimento para nos tornarmos pessoas melhores. Mas talvez precisemos parar de fugir tão rapidamente de tudo aquilo que nos tira do lugar comum.

O conforto não pode ser a nossa única referência

Existe uma vida muito bonita em construir um cotidiano que tenha a nossa cara. Mas existe também um risco quando tudo precisa estar alinhado ao nosso gosto, às nossas preferências e ao que nos proporciona prazer.

Aos poucos, podemos começar a acreditar que aquilo que nos incomoda não deveria existir. Que uma experiência só vale a pena se for agradável, que uma pessoa só merece nossa atenção se tivermos alguma identificação com ela, que precisamos abandonar qualquer situação que não esteja contribuindo imediatamente para o nosso bem-estar.

E a vida não funciona assim.

Conviver exige tolerância. Aprender exige humildade. Amar exige doação. Ajudar exige disponibilidade. E nenhuma dessas coisas acontece o tempo inteiro dentro da nossa zona de conforto.

Quando enfrentamos desconfortos, quando aceitamos ser surpreendidos e quando nos permitimos viver experiências que não escolheríamos automaticamente, saímos mais fortes e mais preparados para o que vier. Talvez porque descobrimos que somos capazes de permanecer, ouvir, mudar de opinião, ter coragem e olhar para o outro.

Também descobrimos que nem tudo precisa trazer um benefício imediato para nós para ter valor.

O desconforto também educa

Hoje, olhando para essas experiências, percebo que nenhuma delas teria acontecido se eu tivesse colocado minha satisfação pessoal acima de tudo. Eu poderia ter desistido do curso. Poderia ter escolhido não sair à noite para ajudar desconhecidos. Poderia ter permanecido naquilo que já conhecia, com pessoas parecidas comigo, experiências que eu sabia que iria gostar e situações que estavam perfeitamente alinhadas ao meu jeito de viver.

Mas eu teria perdido alguma coisa.

Não sei se existe uma fórmula pra se tornar uma pessoa melhor. Na verdade, desconfio bastante de qualquer um que prometa fórmulas. O que sei é que existem coisas que nenhum livro de autoajuda consegue ensinar por nós, porque precisam ser vividas.

É preciso se permitir ser surpreendido, se colocar em lugares diferentes, conversar com quem pensa diferente, ajudar sem esperar nada em troca e ter paciência quando seria mais fácil ir embora. Às vezes, precisamos simplesmente permanecer naquele desconforto por tempo suficiente para descobrir o que ele tem a nos ensinar.

O desconforto que você está evitando não está necessariamente ali para tornar a sua vida pior.

Talvez ele esteja ali pra te tornar alguém melhor.

Qual desconforto você anda evitando?


E se você começar?

Você pode já ter vontade de ajudar alguém. Pode existir uma instituição que admira, uma causa que gostaria de conhecer melhor ou um trabalho voluntário que pensa em fazer há algum tempo. E, por alguma razão, continua adiando.

Escolha uma hoje.

Procure uma instituição perto de você, conheça o trabalho que ela realiza e descubra de que forma pode contribuir. Não precisa ser algo grandioso. Pode ser com dinheiro, com tempo, com trabalho ou simplesmente estando presente.

O importante é sair da intenção e experimentar.

Porque algumas coisas a gente só entende quando vive.


— Amanda Lume